Crônica extraída do livro "Belo" publicado em 2004.
Subir Bahia
E lá vou eu subir Bahia, depois de tantas vezes descer Floresta. Não apenas os versos do compositor me comovem nessa hora; também a multidão que faz da Rua da Bahia um rio de gente, rio alegre. Ali, entre Goiás e Augusto de Lima, cento e cinqüenta mil pessoas festejam a graça e a farsa.
É a Banda Mole aos vinte anos, no entardecer do dia 18 de fevereiro. É a Banda do Zé, do Jacaré e dos home-muié.
Nenhum larápio por perto; apenas um PC démodé, a ensaiar passinhos sem graça em cima do caminhão.
É hora de subir. O som está alto.
Eu olho tudo em volta. A água que chove dos prédios, as pessoas que gritam das sacadas. Os helicópteros que pairam sobre as esquinas. Eu olho as pessoas e me descubro redescobrindo os prédios da cidade. Passa o NET, passa a Igreja de Lourdes, chega a noite.
Minha fantasia sou eu mesmo. Nada de saias e perucas, de botinhas e presilhas, de plumas e paetês. Estou com os que vieram ver a festa.
Alem dos homens, velhos e adolescentes, pelos cantos também seguem as “homenageadas”, nem um pouco lisonjeadas: as mulheres de verdade. Elas não foram convidadas para a festa. “Feiosa! Feiosa!”, gritam os home-muié.
Há os foliões que primam pela delicadeza: elegantes, bem-trajados, pintura em cima, gestos leves e pares de pernas a rebolar. Há os largados: pegam a pior roupa da mãe ou da tia e enfiam no corpo. Há, principalmente, os reis do grotesco: sutiãs e calcinhas horríveis, em corpanzis homéricos. Noivas barbadas e sorridentes. Babados, bordados, colãs e sapatilhas.
As mulheres de verdade são discretas. Quando muito, riem. Descubro no rosto de algumas delas uma expressão nova, bem sutil, quase imperceptível. Nova assim como a bela varanda do prédio do Centro de Cultura, que sempre esteve ali, mas nem todos tivermos o cuidado e o prazer de observar.
É uma ponta de preocupação o que percebo. É claro que elas não estão preocupadas com o fim do mundo masculino – o que seria estranho a esta altura. Mas talvez estejam entretidas com o seu próprio mundo.
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© Rogério Miranzelo