Miranzelo Rogério

Textos: Resenhas 1

marcação Resenha para o jornal "Hoje Em Dia".

As ironias da era virtual em artigos de Baudrillard

      O mundo do sociólogo e pensador francês Jean Baudrillard é rigorosamente virtual. Não existem meio termo, meias palavras ou meias definições. Ele pensa a Europa, sua França, enfim, o mundo ocidental, como um emaranhado de linhas e redes de comunicação – doentes, impotentes e destruidoras. Tudo é irreal. Até o próprio homem, que ao navegar na internet se torna um complemento interativo da máquina, uma espécie de interface.

      No livro “Tela Total – Mito-Ironias da Era do Virtual e da Imagem” estão 26 de seus artigos publicados no jornal francês Libération. Sua postura é de total desalento quanto ao futuro da humanidade. Diz que estamos todos num círculo vicioso onde só há artificialidade – nas relações humanas, na ciência, na política e em tudo mais. Nem a arte lhe escapa: “A maior parte da arte contemporânea dedica-se precisamente a isto: apropriar-se da banalidade, do dejeto, da mediocridade como valor e ideologia”. De seu vocabulário saem expressões como “desertificação social”, “impotência do virtual” e “extinção do real”.

      O autor quer abrir nossos olhos, sobretudo, para a substituição do real pelo simbólico, pela imagem. As telas a que se refere não são apenas as da TV, do computador ou da internet. É tudo o que possa traduzir o nosso distanciamento do mundo real.

Política é o fim

      No texto “A Grande Faxina” é anunciado o fim da política. Os políticos não possuem mais o poder de representar a sociedade, afundam-se na corrupção e entram num processo de autodestruição. E isso, segundo o autor, funciona como uma espécie de catarse para nós outros. Escapamos à ameaça de julgamentos que possam também nos comprometer. Funciona também como teatro. O povo, massa destituída de grandes anseios ou interesses, segundo o autor, adora rever suas tragédias.

      O autor pinta um quadro assustador para a infância. Diz que ela rompe com as ordens biológica e simbólica do passado. E que, surgindo a criança-clone, tudo estará perdido. O homem terá levado ao extremo sua obsessiva busca de reproduzir seres e imagens artificiais. Desaparecem, assim, as funções de pai e mãe.

      O substrato da política é o alvo preferido de Baudrillard. Ele sugere, por exemplo, que Mitterrand fora um “morto virtual”, por ter ocultado sua doença (câncer) durante 15 anos. Teria sido, o ex-premier francês, um representante perfeito dessa ilusão midiática. Uma farsa, imagem construída, como tudo o que nos cerca.

      “Tela Total” é uma obra de um pessimista transparente, um teórico que chama de “servos voluntários” os que acreditam no poder de persuasão da mídia. “A potência do virtual nada mais é do que virtual”, ele afirma.

      A pesar disso, e de trazer muitos erros de revisão ou tradução, que chegam a incomodar, é uma obra de valor, irônica, repleta de analogias imprevisíveis. Não aprofunda muito nos temas, até porque se tratam de artigos, mas deve ser lida por todos os que se preocupam com o destino do homem neste final do século, marcado pelo abandono, pelo niilismo e pelo excesso de informações.

Hoje em Dia – Belo Horizonte – MG – 23/11/1997

 

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© Rogério Miranzelo